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Como é viver sem carro: um guia de sobrevivência

Escrito por Ludmila Alves 2 de janeiro de 2019
Como é viver sem carro: um guia de sobrevivência

Viver sem carro sempre foi a minha realidade. Nunca tirei carteira de motorista e não tenho vocação para esperar e me locomover em ônibus, assim, escolhi caminhar diariamente.

Posso dizer que em muitos aspectos, vale a pena não ter um automóvel. Uma vida se deslocando a pé significa zero sedentarismo, solzinho pra assimilar a vitamina D, ser um carro a menos e não contribuir para o trânsito e para a poluição. Muito poder em uma só escolha!

Me movo assim, mas entendo que as cidades não foram feitas para pedestres ou ciclistas, já reparou nisso? O que nos traz vários desafios, mas também muito espaço para interagir de forma diferente com o lugar em que vivemos e até repensar aspectos do consumismo.

Quer entender como é viver sem carro na prática? Quer vender seu automóvel mas ainda não sabe se irá se adaptar a uma vida  totalmente diferente da sua? Então continue aqui, porque é exatamente sobre isso que vou falar hoje. 🙂🚗🚐

Boa leitura, porque aqui só trago verdades!

Ser pedestre na cidade grande

Como disse, meu meio de transporte sou eu mesma, faça chuva ou faça Sol.

Sou uma “sem carro” convicta e o que mais tenho visto nessa vida toda de pedestre é que as cidades não foram feitas para as pessoas, mas para os veículos e, ainda assim, precisamos ocupar nosso espaço. Até já me questionei se os semáforos e as faixas de pedestre pudessem ser invisíveis aos olhos dos motoristas. Não são, mas há uma cultura que faça que sejam: a falta de senso coletivo.

Ok, ser pedestre é aceitar isso (diferente de se conformar). É saber lidar com morros, poças, buzinas, é ter atenção dobrada ao atravessar a rua mesmo que o sinal esteja aberto para quem anda. Sem contar as calçadas! Parecem inocentes, mas é nelas que estão as garagens das quais saem automóveis que ganham prioridade até onde seria nosso espaço seguro.

O que me sustenta como pedestre, então? Valores! Ter uma vida sustentável que impacte o mínimo possível a natureza é meu principal objetivo. 💚

Saber que mesmo diante de perrengues eu contribuo para coisas importantes, para a sociedade, pelos pedestres e por mim, me anima a ser meu próprio veículo todos os dias. 🙂

Viver sem carro: a parte boa!

Ter um carro ainda é item constante na listinha de sonhos das pessoas! Algo que é um tanto justo considerando a mobilidade que os nossos transportes públicos oferecem. Mas por traz desse sonho, precisa ter questionamento e consciência.

Questionamento para avaliar se realmente é necessário ter um carro e consciência para se lembrar e se responsabilizar por todos os impactos que essa escolha causa a você, a sua cidade e ao planeta.

Preciso de um carro para me locomover todo dia? E se não precisar de um, eu realmente preciso usar meios de transporte como ônibus ou carro para dar conta dos meus afazeres? Ter um carro me ajuda a conquistar meus objetivos ou ele é o objetivo em si?

Se ainda desconhece as respostas ou não está convencido de que não precisa de um carro e que a vida sem ele pode ser ótima, dá uma olhada nos benefícios de ser um pedestre, ciclista, usuário de transportes publico ou um misto deles!

 

Economizar dinheiro

Combustível, manutenções periódicas, seguro, estacionamento e IPVA resultam em bastante dinheiro no fim do ano. Mas quanto exatamente?

Segundo uma matéria da Infomoney são cerca de R$ 2.500,00 gastos por mês para quem tem um carro no valor de R$ 50.000,00 e o usa com frequência. Muita coisa!

O que eu gasto com Cabify e Uber, não passa R$ 400,00 mensais. Quem usa essa transporte para ir ao trabalho diariamente, pode gastar cerca de R$ 1.000,00. Bem diferente, não é mesmo?

É claro que se você mora longe, se um automóvel te faz feliz, se te dá conforto, liberdade e te ajuda nas tarefas, tenha um carro! Sendo assim, avalie se pode reduzir o uso dele tendo um dia da semana sem ele, por exemplo.

Se locomover mesmo com o trânsito parado

Sabe aquela sensação de poder enquanto você anda e vê os veículos em um engarrafamento? Presencio esse cena principalmente no fim do dia às sextas, quando avisto um mar de carros e pessoas nervosas querendo sair do lugar para ir descansar. Parados, eles se estressam.

Andando, apenas observo e penso “como é um privilégio estar a pé e saber quanto tempo levarei para chegar até meu destino final”.

Estar a pé ou na bike significa estar livre do trânsito!

Fazer exercício físico e tomar Sol

Nem todo mundo sabe, mas sem a vitamina D a gente não fixa o cálcio nos ossos, nutriente muito importante! No Brasil, luz solar é o que não falta e, ainda assim, tem pessoas com falta dessa vitamina. Andar e, consequentemente, tomar Sol resolve esse problema (se você não tem uma carência específica, claro!).  ☀☀☀

Quer entender melhor? Olha o que o Dr. Drauzio Varella fala sobre vitamina D.

Falando em saúde, outro ponto positivo de viver sem carro é sair do sedentarismo. Se movimentar, seja andando, pedalando ou caminhando para chegar ao ponto de ônibus já soma pontos positivos para a saúde dos músculos e ossos.

Eu, por exemplo, gasto 20 minutos para chegar ao trabalho, o que no final do dia somam 40 minutos caminhados. Não é um treino intenso obviamente, mas é sim uma forma de se mexer e fazer o coração trabalhar.

Ser sustentável e se lembrar que o mundo não é só seu

Sustentabilidade é um dos meus temas preferidos aqui no Bistroveg porque boas ações, mesmo que pequenas, impactam positivamente o ambiente em que vivemos e o mundo.

Mas por algum motivo que não sei qual, muita gente tem dificuldade de tirar da rotina práticas ruins para o planeta. Andar de carro todos os dias é uma delas!

Se todos nós tivéssemos carros e andássemos em lotação mínima (uma ou duas pessoas apenas) seria um caos! Necessitaríamos de muita exploração de petróleo para a gasolina, grandes plantações para a produção de álcool, alta extração de metais para produzir muitos carros e haveria mais poluição no ar por conta dos gases emitidos pelos automóveis.

 

BIKES vs CARS TRAILER from WG Film on Vimeo.

“Ah, mas em breve teremos carros elétricos!” Ok. Ele elimina o problema da poluição pelo combustível queimado pelo carro, mas não elimina a poluição na exploração dos metais para fabricá-lo, bem como a poluição gerada pela fábrica que o produz e o do ciclo de consumo e descarte de um bem.

 

Carro elétrico pode?

 

Lembre-se que toda vez que você compra algo, há um esforço de produção por trás dele que envolve recursos do planeta. Não ocupamos esse mundo sozinhos e nossas ações, mesmo que pequenas, impactam. Então, seja sustentável como puder, começando por usar menos o carro!

Reavaliar o consumismo

Você já se perguntou quem colocou na sua cabeça o sonho de ter um carro? Foi a sociedade que dita vários valores que não precisam ser seus. Tipo ter um carro, às vezes mais de um, trocar o celular por aquele mais moderno, viver experiências e contá-las para todo mundo. Por quê?

Reavaliar o que adquire e o que usa pode ser iniciado por pensar na necessidade de ser dono de um carro. Foi o que o Raí, ex-jogador de futebol fez: após morar na Europa, ele viu que não era fundamental ter um carro no Brasil.

 

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Sou sempre perguntada sobre quando vou tirar a carteira de motorista. Invento uma data no futuro, mas no fim das contas sei que não preciso porque hoje vivo muito bem sem um  automóvel.

Da mesma forma que me questiono e me escuto sobre não precisar de um carro, faça isso com qualquer item material.

E se você também quer reavaliar o que consome, recomendo que leia Vida Minimalista: Como Viver Melhor Com Menos.

Observar os lugares por onde passa

Que relação você tem com o lugar onde vive? Você sabe quais são os novos estabelecimentos que abriram no seu bairro, as fachadas que mudaram, como é a movimentação local?

A vida que nós humanos inventamos moldada para ir trabalhar, às vezes faz a gente esquecer de observar e ouvir a cidade. Mas não se locomover de carro nos devolve a cidade que é nossa, além de nos permitir meditar e refletir andando (ou quase).😌

Caminhar, estar na bike e não ser mais um motorista estressado no trânsito nos deixa ficar imersos na paisagem. Tente!

O preço por não ter carro: a parte difícil

Acredito que a escolha de viver sem carro é o benefício por si só. Porém, é verdade que a cada decisão tomada pagamos um preço ao qual devemos estar dispostos a conviver. Assim, listei aqui o lado nem tão lindo em andar a pé diariamente.

 

Quero ressaltar que esse esforço vale, afinal, as vantagens são bem maiores e esses percalços não incomodam. Minha intenção é ser transparente para que ninguém diga que eu não avisei, hein! 😂

 

Viver sem carro no Brasil é complexo

Moro em Belo Horizonte e a regra aqui é se o sinal fica amarelo, o motorista precisa acelerar! Piadinha de pedestre. 😂😂😂

Brincadeiras a parte, digo isso porque já vi muitos carros, ônibus e motos atravessando a faixa de pedestres com o sinal verde para as pessoas. Se nem com isso os motoristas se comprometem, imagina quando não tem semáforo! Seja na faixa ou na calçada, carro tem sempre razão.

 

 

E, assim, seguimos fora do carro ao som de buzinas e xingamentos exercendo o direito de locomoção nos locais que nos é permitido.

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Essa complexidade, ou seja, o carro que se impõe, é cultural. Em terra onde não existe o nosso, somente o de ninguém, é cada um por si e o mais forte e mais rico ganha. 😦

Isso pode mudar! Mais pedestres, mais pessoas a pé ou na bike fortalecem os nossos caminhos.

Mas ande sempre atento, ok?

 

Ter menos autonomia para viajar

Quando se viaja para longe, o meio é o avião. Mas se você quiser ir para uma cidadezinha do lado onde não há táxi, talvez tenha que alugar um carro. Sim, estar motorizado não é necessário para viajar, mas às vezes faz falta.

Sabe aquela cachoeira a 60km para onde não há ônibus? Você precisará de uma carro para ir.

Se a falta de carro é um problema aqui, já pense nas soluções. Pegar carona é uma delas!

 

Estar à mercê das intempéries do clima

Nos dias amenos, na chuva, em dias lindos e nos dias quentes (os mais frequentes) estamos por aí.

Os dias quentes não são tão sofridos se escolhemos fazer os trajetos pela manhã, como no meu caso, que saio para trabalhar antes das 8. Mas quando chove, não há o que ajude!

 

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São veículos que espirram água, é o sapato que ensopa, é o vento, a sombrinha que só serve para manter a cabeça seca. Isso quando estamos avisados! Porque na chuva que vem de repente, prepare para se molhar.

Dá para aprender a lidar com isso também!

 

Dicas para viver sem carro e se adaptar a esse novo estilo de vida

“Mas você faz tudo a pé?” é a pergunta que mais ouço quando conto como cheguei até a algum lugar. Quase!

Por motivos de segurança, quando tenho aulas à noite, chamo um carro (para não dizer as marcas dos aplicativos de motoristas particulares, rs 😂). Até umas 19 horas, considero os lugares onde caminho seguros. Mais tarde, só caminho se estiver acompanhada.

Fora isso, sim, faço tudo a pé! Vou trabalhar, ao supermercado, à academia, a restaurantes, às aulas, aos parques onde corro.  Sempre com as minhas próprias pernas.

Para que o viver sem carro seja possível, tudo deve estar adaptado para isso. E são esses ajustes que a vida a pé, na bike e no transporte público exige que vou dividir agora.

More perto do trabalho

Passamos bastante tempo no trabalho e fazemos muito por ele. Então, é justo que para chegar até lá e voltar para casa não tenhamos estresse e nem uma longa jornada.

Eu escolhi morar numa região mais central da cidade, próxima do que necessito. Não escolhi morar perto de onde trabalhava, mas sempre pude ir a pé, mesmo passando por diversas empresas.

Boa localização para morar e também ter a proximidade de casa como um critério de escolha para um emprego, traz possibilidades e reduz as chateações das dificuldades que já citei.

E aqui uma dica valiosa: defina o que é perto para você!

Quando eu olho no Google Maps para ver rotas, vejo se os caminhos são seguros e se são até 40 minutos andando, meu fator decisivo para ir a pé.

 

Ou trabalhe em Home Office

Os profissionais e empresas estão mudando e agora trabalhar em casa também é sinal de trabalho digno, mesmo que quem mora com você não entenda isso. 😂

 

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Acredito muito que o home office tende a crescer. O deslocamento das pessoas faz com que elas percam tempo e energia até o trabalho. E, gente, nossa vida é muito curta para aceitarmos desperdiçar horas.

Um home office de vez em quando é bom para você, bom para o trânsito e para o meio ambiente.

 

Se for de bike ou a pé, escolha os caminhos seguros

Quem dera tudo fosse como na Holanda, caminhos bem seguros e direitos iguais para carros e desmotorizados. Não é. Mas repito: se queremos, nos adaptamos.

 


Não é bacana eu dizer isso, mas devemos ter consciência que podemos ser assaltados ou que coisas piores aconteçam por causa da violência urbana.

Há anos na vida a pé, nunca fui abordada, mas já corri riscos que não cometo mais.

A dica aqui é se informar sobre os caminhos, dar uma olhada via “street view” e realmente saber por onde vai passar. Mesmo sendo seguro, não caminhe à noite se estiver sozinho!

 

Se não for a pé, evite os horários de pico do trânsito

Tem dias que a solução vai ser pegar o ônibus. E se ele estiver cheio e o trânsito denso, aquele pensamento de “quero um carro” vai te pegar!

Portanto, não se torture! Se possível, pegue o transporte público depois das 10 da manhã e depois das 7 da noite, evitando os horários em que a maioria das pessoas precisa trabalhar.

Você terá que ajustar seus compromissos e até a entrada no trabalho, mas vale a pena!

 

Tenha roupas e sapatos confortáveis

Quem anda muito a pé, sabe: rapidinho as solas dos sapatos ficam gastas e eles ficam bem acabados.  Então, é preciso sapatos resistentes, que sejam confortáveis e mantenham seu pé em uma temperatura agradável. Alpargatas são perfeitas para mim. 😊

Além disso, calças de tecidos mais finos, camisetas leves e vestidos contribuem para caminharmos sem incômodos, sem calor e com liberdade. Perfeito.

 

Mantenha o celular sempre carregado

Ir para um lugar inédito significa um novo caminho a fazer. E, às vezes, mesmo pesquisando o melhor trajeto antes, dúvidas surgem. Estou perto? Cadê o lugar? Virei errado?

Para não ter problemas, mantenha seu celular com bateria. Os mapas salvam!

 

Use mochila

A mochila é a minha concha porque nela levo tudo o que preciso para viver.

Mas o fato de recomendá-la é por motivos de conforto postural!

 

Pense coisas felizes pelo caminho 🙂

Ouvir música, um podcast, cantar pela rua, mentalizar coisas boas!

Não desperdice seu tempo fora do carro. Use-o para ficar bem e, assim, se motivar a continuar fazendo isso.

 

Viva sem carro você também!

Carro, consumo, minimalismo e mobilidade urbana tem tudo a ver e são temas que devem nos interessar enquanto gente que vive e desfruta a cidade. Se a queremos boa para nós, ou seja, nos permitindo ir e vir e viver bem, temos o que fazer parte da transformação.

Você reclama do trânsito? Veja a possibilidade de sair dele. Se preocupa com a poluição do ar mas está fisicamente longe?  Vá de bike. Não há desculpas!

Minha sugestão é para que você comece aos poucos como puder. Aos poucos, suas saúde, o trânsito, o planeta e a sua qualidade de vida vão melhorar muito!

Gosta do tema mobilidade urbana? Então confere essa lista de 30 documentários!

 

 

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2 Comentários

Robson 24 de abril de 2018 - 22:48

Muito interessante! Concordo contigo, momentos fora do carro são excelentes para refletir sobre situações e deixar a criatividade trabalhar. Obrigado por compartilhar.

Reply
Ludmila Alves 2 de maio de 2018 - 17:15

Obrigada, Robison!
Viver sem carro é possível e fico feliz de ver que tem mais gente procurando por isso 🙂

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